O charme grisalho… da minha avó

Este título ganhou forma faz quase um ano. Foi em Agosto. Mais precisamente no dia 20, que abri esta janela e escrevi este título. Assim ficou.

O charme grisalho. Queria destacar o teu cabelo branco. Mas não era bem o cabelo que interessava. Era a tua maneira de ser, tão particular. Ao ponto de, esse cabelo branco ter aparecido, tinhas tu saído da adolescência há pouco. Jovem adulta, casada e de madeixa branca. Marcante. Característica. Não havia ninguém assim. Com uma madeixa branca no cabelo. E com esse teu feitio. Próximo. Carinhoso. Livre. Independente. Teimoso. Meigo.

Dizias, com orgulho, que conduzias o teu carro e nunca tinhas tido um acidente. Deixavas-me dormir contigo mesmo quando deixei de ser criança. Fazias torradas, na braseira de picão, nas noites de inverno, quando víamos aqueles filmes modernos, alguns futuristas, como o Robocop. E, lembras-te, quando ficavas à conversa com alguém na rua e te esquecias que tinhas um almoço para preparar porque o teu neto, ou os teus netos, iam almoçar a casa? Calhava uma sopa com legumes mal cozinhados ou empadas com arroz. Era um horror ou dia de festa. Nunca o sabíamos. Mas nunca o esqueceremos.

Adelaide. E não Maria Adelaide, como muitos te chamavam e tu detestavas. Nunca tiveste Maria no nome. Adelaide. Só. Apenas. Saías no teu carro. Ias ao Facha. Presenteavas-me com aquelas torradas com manteiga deliciosas. Num daqueles sítios em que não estavas em casa, mas eras da casa. Já não sou desse tempo. Mas imaginava-te a entrar nesse espaço quase exclusivo dos homens da cidade. E tu, sempre senhora do teu nariz, entravas e pedias o teu café. Que bebias. Sem dever nada a ninguém. Sim, sinto um grande orgulho. Como não?

És minha avó. Sou teu neto. Mas fomos, somos, parceiros. As idas a Badajoz, programadas com duas semanas de antecedência, para levarmos a folha azul de 25 linhas assinada pelos meus pais e reconhecida pela conservatória. O atravessar da fronteira. Os almoços no Flash com as suas mesas que simulavam carruagens. As viagens. Tu ao volante. Primeiro do Ford Escort bege. Depois do Ford Fiesta cinzento. Eu, de joelhos no banco, virado para trás, transformava a chapeleira numa pista de automóveis. Daqueles. Pequenos. Éramos felizes.

E os serões na varanda, com o televisor na janela, para vermos os Jogos Sem Fronteiras? E as visitas que me fazias quando vivia nos arredores de Lisboa? As idas ao cinema…

Soubeste viver a vida. Sentia a força quando eras tu que conduzias e o avô seguia ao teu lado, no lugar do pendura. Não o testemunhei por mais do que seis anos. Agora vão poder voltar a viajar juntos. Contigo ao volante. Sempre. E, quase aposto, num automóvel eléctrico. Dos mais modernos.

A madeixa cresceu. Deixaste de ir à Inês e o dourado artificial cedeu à força grisalha. Ficaste igualmente bonita. Muito bonita.

Já passaram umas horas desde que os teus olhos se abriram pela última vez. Tenho tanto e tão pouco para te dizer. Para partilhar contigo. Quase aposto que tu também. Mas agora está na hora de matares saudades do avô. Um beijinho grande. Qualquer dia voltamos a estar juntos, vais ver.

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