Descobertas com a casa às costas (parte 3)

Descansados. Revigorados. O ar que humedece com o Tejo torna esta manhã de agosto mais do que apenas tolerável. É muito agradável. Do outro lado vê-se o Alentejo. Aqui começa a Beira. Esta é a Baixa.

O caminho leva-nos ao Pinhal Interior. Com a casa às costas, a regra é evitar as auto-estradas. Andar rumo ao destino incerto, sem planos, sem pressas. A estrada estreita. Deixamos as velocidades hipotéticas dos itinerários principais, ou complementares, e procuramos estradas enroladas, de serra, que nos levem à descoberta.

Com a casa às costas, a viagem é pesada. É calma. É lenta. É vivida. É aproveitada. A entrada no pinhal desperta os sentidos e faz aumentar a concentração. Estamos alerta. Os cuidados são maiores. A incerteza também. Será que tem saída? Será que a caravana passa? Havia saída. E a caravana passou.

A ribeira da Isna é um afluente do rio Zêzere que serpenteia pinhal abaixo. Nesse sábado de verão, a praia fluvial do Malhadal, com um lado em Proença-a-Nova e outro no concelho da Sertã, não se apresentava como uma qualquer praia de rio privada. Mas era quase. A piscina improvisada com uns blocos de plástico tinha lotação limitada. Longe de estar esgotada. Não fosse esta família caravanista de fim-de-semana e nem um visitante teria recebido nesse sábado.

O pouco vento faz-se soar nas copas dos altos pinheiros que funcionam como guarda-sóis cooperativos. Nestes recantos interiores, meio escondidos da civilização, o difícil não é encontrar sombra. É descobrir um lugar ao sol, para corar. É a relativização do conceito de praia.

O céu envergonhou-se. Não está cinzento, mas ofusca o sol. A temperatura da água é “fresquinha”. Dá para uns mergulhos. Mesmo que não desse. A vontade do miúdo era mais forte. Umas braçadas são suficientes e, de repente, estamos capazes de por ali ficar umas horas. Até que voltamos a casa. Está ali perto. Atravessamos o dique e damos à chave.

A casa ganha tração. Move-se. Acabamos na Sertã. Gosto da centralidade da vila. Com a ribeira homónima que a percorre pelas suas entranhas. Com a Estrada Nacional 2 que a rasga para ligar Chaves e Faro. Em agosto, o movimento é grande. Há emigrantes de férias. Há motociclistas numa missão. Há pessoas. Há vida. E nós encontrámos um lugar especial para pernoitar. Esta noite temos vista rio.

(Este é o terceiro de uma série de textos que escrevo sobre a primeira experiência numa auto-caravana.)

Primeiro artigo – A casa às costas (parte 1)

Segundo artigo – Acorda (A casa às costas – parte 2)

Acorda com vista rio (e a casa às costas – parte 4)

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