Acorda (A casa às costas – parte 2)

Gosto de acordar. Gosto da sensação de aconchego dos lençóis, do edredão, do saco-cama. Assim, já desmanchados. Mas aconchegantes. Gosto de me espreguiçar, ainda deitado. Gosto de acordar às escuras. Gosto de acordar e ver a luz a passar pelos buraquinhos das persianas. Gosto de ouvir a chuva a cair, com força, lá fora. Gosto de ouvir os amigos do bairro já na rua. Gosto de ouvir os miúdos da escola a caminho da sala antes do toque da campainha.

Gosto de ouvir os pássaros a chilrear. Gosto de ouvir as folhas batidas a vento. Gosto da proteção das paredes grossas de casas térreas alentejanas. Gosto da separação definida por um fino tecido de uma tenda de campismo.

Gosto. De. Acordar. Ponto.

No último verão aprendi que também gosto de acordar sobre rodas. Dentro de uma carrinha. Ou melhor, numa auto-caravana. Num local que mal conheço. Num local que sei que vou deixar em pouco tempo. Gostei de acordar com a janela ligeiramente aberta. Gostei de sentir o ar húmido de uma manhã não muito quente da canícula.

Na estreia, saímos e levámos a casa às costas.

Acampar, de forma mais ou menos frequente e regular, sempre fez parte da minha vida. Lembro-me de ser miúdo e acordar com o cheiro dos pinheiros do parque de campismo para onde íamos, no Algarve, durante as férias da praia.

Era uma sensação de pureza, de liberdade. Mesmo se, em julho, os vizinhos estavam muito perto, do outro lado do arbusto.

Na auto-caravana estamos menos livres. As paredes são mais pesadas, mais fortes. Separam-nos mais do ar puro que nos rodeia. Só que não nos isolam. Estamos no interior, mas ouvimos o que vem de fora.

Gostei muito deste acordar. Numa casa com cozinha, sala e dois quartos. Tudo quase encavalitado. Com armários. Com casa-de-banho. Com muitas zonas de arrumação. Estávamos os três. Naqueles metros quadrados. Nossos. No espaço de todos.

Vou voltar a abrir a porta. Vou parar. Vou inspirar. Bem fundo. É mágico. Parece que temos o mundo, mesmo que seja aquele pequeno mundo, só para nós. Os rituais, os processos são, todos ou quase todos, sentidos, vividos. São as férias, pois claro. Mas não são só as férias. É o contexto.

Preparar o pequeno-almoço ainda meio endorminhado. Montar as mesas e as cadeiras. Como se fosse o circo. Sentir o ar matinal a beijar-nos a cara. A seguir… sair. Sair sem destino. Com ideias. Mas sem destino.

Entramos em estradas enroladas. Curva e contra-curva. Sobe e desce. Planos muito inclinados. Descobrimos praias fluviais. Vamos a banhos enquanto a máquina descansa à sombra dos pinheiros. O Pinhal Interior surpreende-nos. Não é o mesmo que nos invade as casas pela televisão quando, no verão, se incendeia. Não o reconhecemos. Gosto dele assim. Como gosto de acordar.

(Este é o segundo de uma série de textos que escrevo sobre a primeira experiência numa auto-caravana.)

Primeiro artigo – A casa às costas (parte 1)

Descobertas com a casa às costas (parte 3)

Acorda com vista rio (e a casa às costas – parte 4)

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