No início está o quilómetro zero

A ideia surgiu com tempo. Meses antes. Recém-encartados, a ideia de fazermos a primeira viagem de moto juntos começou a ganhar forma. Seria uma viagem sem planos.

Esperámos pelos dias maiores, mais soalheiros e pelas temperaturas mais amenas. Ou quentes. Também esperámos pelo regresso a uma quase normalidade, depois de meses de confinamento e restrições à mobilidade. Organizámos as agendas e arrancámos. Era final de julho. Mês em que, em Portalegre, o calor assa. Os atrasos tiveram o condão de empurrar a primeira viagem para a noite. Tínhamos decidido que iríamos evitar andar de moto depois do sol posto. Ainda não tínhamos arrancado e já tínhamos falhado esse objectivo. Nem tudo foi negativo. A saída com a estrela a querer esconder-se a Oeste impediu que as altas temperaturas juntamente com as roupas cheias de protecções e os capacetes criasse uma mistura que, não sendo explosiva, tornaria os primeiros quilómetros, das várias centenas que faríamos em quatro dias, penosos.

A viagem foi pensada a três. Neste primeiro dia fomos, porém, apenas dois. A incursão por terras de Espanha seria minha e do Filipe. O encontro com o Nuno, que saía de Barcelona, estava marcado para a hora de almoço do dia seguinte.

Deixámos Portalegre para trás. O relógio marcava 19h15. Pela frente tínhamos quase 400 quilómetros. O sol do nosso lado direito – rumávamos a sul – que, bem baixo, alongava as sombras e o cheiro a terra quente de um típico dia de Verão no Alentejo.

Campo Maior e adeus Portugal. Olá Espanha. Entrámos em Badajoz e parámos para abastecer. A gasolina é muito mais barata, mesmo numa estação de uma companhia portuguesa. A paragem na cidade extremeña foi curta. Não tínhamos, sequer, percorrido 80 quilómetros e a noite aproximava-se com fulgor, talvez para afastar o calor que assolava a região.

A autovia levou-nos para lá de Mérida. Só depois desta cidade fortemente marcada pela presença romana saímos para uma estrada nacional, rumo a Don Benito.

A pandemia trocou-nos as voltas. As rotinas dos espanhóis são mais tardias do que as dos portugueses quando decidimos sentar-nos à mesa. Sabíamos disso e deixámos o jantar para mais tarde. Mas a preocupação aumentou. Passávamos nos pueblos e quase não se via vivalma. Restaurantes, cafés. Tudo fechado ou em vias disso. Nem à beira da estrada. Encontrámos, por fim, um café com esplanada que tinha sandes. Do menos mal passámos ao muito bom no Bar Solomando, em Valdivia. Ali, naquele café junto à N-403, não havia simples sanduíches. Serviam bocadillos, com pão cozido na hora. E tomate, manchego e serrano. Nem um cafe solo faltou, no final, mesmo que, para isso, a senhora tivesse de ligar a máquina de propósito. O hábito cafeteiro é maior deste lado da fronteira e, àquela hora, apesar das restrições causadas pela pandemia, havia mais gin e rum nas outras mesas do que café.

Homens abastecidos. Hora de voltar à estrada. A noite já se impunha. O céu era escuro. Era breu pontilhado por pequenas luzes brancas, muito brancas. A contemplação da paisagem teve de ficar para uma outra oportunidade. A concentração na luz dianteira e no asfalto tinha de ser total. A estrada era quase só nossa. Percebemos, pelas vezes que inclinámos as motos, que cruzávamos uma área mais montanhosa. O Embalse de Orellana e a Sierra de Pela desafiavam-nos. Curva. Contra-curva. Prazer e diversão. Mesmo sem apreciarmos o que nos rodeava. Só nós. As motos. E a estrada.

Os níveis de gasolina nas motos entraram em níveis que nos alertaram. Tínhamos de parar. Reabastecer. Mas, tal como os cafés, também as bombas de gasolina estavam fechadas. Não sabíamos bem qual a nossa autonomia. Arriscámos. Baixámos o ritmo. Andámos mais devagar. Chegámos longe. Ciudad Real é imponente. Tínhamos alcançado o objectivo do dia. Apesar da hora. Apesar da pandemia. Com combustível. Não ficámos apeados.

No GPS estava marcado o hotel. Chegámos. Tocámos à campainha. Atenderam. Não há quartos. O hotel está fechado! E agora? É uma da manhã. Qual a solução? A estratégia da gestão do hotel era a esta: mantinham as unidades hoteleiras abertas nos sistemas de reservas mas, no momento em que estas eram concretizadas, os clientes eram encaminhados para outra unidade do grupo. Foi isso que nos aconteceu. Teria sido um bónus se o plano fosse ficar e explorar a cidade. Deixámos os subúrbios para ir para uma zona mais central. Mas não. Mal tomássemos o desayuno saíamos rumo a Este.

Motos estacionadas na garagem. Check-in feito. Já passa das duas. Hora de dormir.

(Este texto insere-se num conjunto de artigos sobre a minha primeira viagem de moto realizada em julho/agosto de 2020, com dois grandes amigos, o Filipe e o Nuno. Em três dias e meio demos a volta a praticamente metade de Espanha.)

Artigo 2 – “Alimenta-te. A noite foi curta e o dia é longo.”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: