Família de cozinheiros

Linhagem. Uma série de gerações. A ligação familiar. Cá por casa, temos vários cozinheiros. A minha avó paterna, a Dona Benedita, sempre teve mão. O fogão. Esse objecto inanimado ganhou vida quando lhe acendia o lume.

As memórias são quase infinitas. Dos bifes de molho com batatas fritas às azevias e filhós. Estas últimas, fazia-las religiosamente para os netos que ainda não tinham aprendido a magia de um recheio de grão. Das comidas de tacho aos petiscos que me faziam pedalar duas boas dezenas de quilómetros para me infiltrar num piquenique dos meus avós e dos amigos. A sopa de feijão com couve. Pesada. Rica. Cheia de sabor. Os bolos fintos e as boleimas em forno de lenha, pela Páscoa. E o bolo-rei. Desde o início de dezembro ao 6 de janeiro. Aquela preciosidade. Única. Daquelas que me fez recusar qualquer outra proposta, por semelhante que fosse.

O privilégio não foi exclusivo meu. Nem da família. Seria egoísmo. Não seria justo. A cozinha foi a sua casa. A sua vida. Para os seus. E para os outros. Os que iam ao restaurante. Os que provavam as criações da madrugada e que a tiravam da cama quando o sono estava lá bem alto. Aquele que um dia se apresentou como Special One cresceu com este alimento.

A mão comanda tudo. A do seu filho mais novo, o meu pai, herdou o toque. E o António assumiu a responsabilidade. Quase diariamente. Lá em casa, a cozinha é sua. E bem que o legado foi bem entregue. Peixe. Carne. Bolos. Que perdição. As gerações sucedem-se. O fardo é pesado. Mas o Miguel é forte e carrega-o. Encarou o desafio. E fez disso o seu ganha-pão. Com respeito. Com responsabilidade. O respeito pelo que pai e avó fazem e fizeram é tremendo. Que o diga o frango de fricassé ímpar que surge à mesa.

O gosto alastrou-se. Aqui em casa, sinto-me bem na cozinha. Com tachos. Com frigideiras. Com travessas. Só o açucar me puxa o tapete. É uma relação desconfiada. Evito, por isso, a pastelaria. Apenas.

A geração mais nova familiariza-se com a cozinha. Continuará o legado? Cada coisa a seu tempo. Sem pressas. Sem etapas queimadas. São momentos maravilhosos. Deliciosos. No seu banco, ajuda, contribui. Atrapalha. Faz parte.

A especialidade é pizza. Fazer a massa. Espalhar a farinha pelo chão. Colocar as camadas. A polpa. O queijo. Dispor os restantes ingredientes. Até aos orégãos. Rebeldes. Voam sobre a pizza e dispersam-se.

Saída do forno. Cheira tão bem. Sabe melhor. O momento foi especial. A partilha é marcante. E o legado poderá ter continuidade…

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