A Estrela que domina o balcão

A Vargem é um daqueles lugares que vê muita gente passar mas, com excepção dos que ali vivem, poucos param. Há, naquela pequena povoação, três cafés. A organização é simples e de fazer inveja a muitos planos de ordenamento do território. Há um em cada entrada e um terceiro no largo da aldeia.

Neste primeiro de Novembro, a manhã foi passada na estrada. De bicicleta. Nada religioso, recordo, mesmo assim, a infância em Castelo de Vide. Neste dia do ano, acordava bem cedo. Desejava que não chovesse e, equipado com um saco de pano, juntava-me a alguns amigos para calcorrear a vila. De porta em porta, sem tocar à campainha, com a cantilena na ponta da língua:

Senhora dê-me os santos
Pela alma dos seus defundos
Lá estarão na santa cruz
Para sempre, amén, Jesus.

O ritual era, no caso, pagão. Valia pelo convívio, pela amizade. Valia pela partilha, pela solidariedade. Valia pela disciplina.

Pela hora de almoço, cada um regressava a sua casa. Saco mais ou menos cheio. Com pão. Com frutos secos – castanhas, figos, nozes, avelãs. Com fruta – laranjas, dióspiros, marmelos. Com moedas. Se a caminhada fosse afortunada, com uma nota ou outra. Com rebuçados. Com chocolates.

Eram bons, esses primeiro de Novembro que ficaram na memória. Hoje, de bicicleta, não fui pedir os santinhos. Aproveitei para somar e partilhar quilómetros entre um dos triângulos mais bonitos que conheço, o de Portalegre, Castelo de Vide e Marvão. Já no final, na Vargem, paragem no café que fecha a localidade quando fazemos a N246 de Sul para Norte.

O toldo não tem qualquer referência ao espaço. É branco e está ali com uma função, apenas. A de dar sombra a quem prefere o exterior. Lá dentro, a disposição típica de um café de aldeia, de uma tasca. Corredor à largura. Balcão corrido. Pouca luz. É preciso fazer um compasso de espera. A senhora que serve está lá para trás. Possivelmente, na sala de estar. Porque é comum que estes cafés sejam uma extensão das casas de quem os gere. Aparece na penumbra. Com a sua bata de trabalho e uma echarpe de lã pelos ombros porque os dias ainda não estão muito frios, mas o Outono avança e é melhor prevenir do que remediar.

Pedido feito. Bebidas recebidas. Duas minis e uma água com gás. Nota em cima do balcão para pagar a conta. Por duas ocasiões, a D. Estrela – nome que saberia apenas no final da visita – tocou na nota. Em cada uma das vezes, deu dois toques rápidos. O sinal era imperceptível. Esboçou um sorriso quase imperceptível por detrás da máscara.

“São os santinhos”, afirmou com convicção.

Foi inesperado. Quase fiquei sem reacção. Agradeci. Com um simples “obrigado”.

No exterior, a aproveitar o dia soalheiro deste verão de São Martinho antecipado, e no regresso a casa, de bicicleta, pensava em como estes momentos são surpreendentes por serem bons, genuínos. Não sei se a D. Estrela deu muitos santinhos neste dia 1 de Novembro de 2020. Pouco importa. A mim, encheu-me o coração. Comoveu-me. E fez-me sorrir o dia inteiro.

Obrigado, D. Estrela. Em breve, voltarei. Não para ir buscar os santinhos, mas para tomar um café e, se possível, ver o seu sorriso sem máscara.

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