A estrada do engenheiro inglês

1992. É final da tarde. O fim-de-semana passou a correr. O tempo está seco e a estrada também. Ao volante do Ford Fiesta cinza prata está a avó Adelaide. Aquela mulher assertiva que determina, que decide, que sabe para onde quer ir. O destino, desta vez, é simples e claro. Vai deixar-me em casa porque amanhã volta a rotina da semana. É dia de ir para a escola. Os meus pais estão à minha espera.

Entre uma terra e outra distam 20 quilómetros. Mesmo que não seja exactamente assim, vivemos sempre com essa marca, a dos 20 quilómetros a separarem Portalegre e Castelo de Vide. A estrada é nacional. E tem um número alto. É o 246.

As viagens são regulares. Comuns. Poderia dizer que tanto os meus pais como a minha avó já conhecem estas curvas de olhos fechados. Mas isso seria esticar a corda num tempo em que se leva tudo tão à letra. Fico-me, assim, por um mero conhecimento profundo.

Aquele troço da EN246 não tem grande história. Terá muitas histórias. É certo. Mas é simples. Dá para andar depressa. As velocidades podem ser altas. Recordo, no Jardim do Tarro, nas longas noites de verão em que brincávamos enquanto os adultos bebiam café na esplanada, de alguém, feito gabarolas, afirmar que fazia os 20 quilómetros em menos de oito minutos. São médias pouco credíveis. Não importa. Da gabarolice já não se livrou.

A avó Adelaide não se escusa de fazer, sempre, o mesmo comentário quando passa na zona do Santuário da Nossa Senhora da Luz. E, por aí abaixo, quando seguimos no sentido Castelo de Vide Portalegre, ou por aí acima, no sentido contrário. É sagrado.

– Esta estrada foi feita por um engenheiro inglês. Quando acabavam uma a curva, perguntavam:

“Está bom assim?”, perguntava o encarregado.
“Yes”, respondia-lhe o inglês.
“Olha, quer mais um esse”, dizia o encarregado para os trabalhadores.

– E como o engenheiro é que sabia, os trabalhadores desenhavam a orografia no extremo da serra de São Paulo com mais uma curva para a esquerda ou para a direita.

2020. A história era sempre fascinante. No final, não havia um dia que não soltasse uma gargalhada ou lançasse um sorriso feliz. Segundos depois, já o assunto da conversa tinha mudado. Mas não podíamos passar à frente e deixar de falar do inglês responsável pela estrada em Portalegre e Castelo de Vide. Deu mão-de-obra a quem a construiu e a quem passou por ela.

Aquele troço de estrada resiste. Perdido. Abandonado. Um troço mais moderno e mais rectilínio ganhou vantagem. O que ali estava, e está, não perdeu o respeito de quem tantas vezes por ali passou. Mas foi esquecido. Perdeu utilidade. É o acesso a dois ou três negócios, outras tantas casas e ao Santuário da Nossa Senhora da Luz. Pouco mais. Transformou-se, no sentido Castelo de Vide – Portalegre, num beco sem saída.

Passo lá, de quando em vez, de bicicleta. Não há momento que, enquanto pedalo naquele asfalto rugoso, não pense na minha avó e no engenheiro inglês.

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