Escrevo o Douro em noite de suão

Escrevo estas linhas, sentado em frente ao computador, embalado pelo vento forte que se faz sentir lá fora. Talvez não me exprima da melhor forma. Embalado não será a palavra mais apropriada para descrever as fortes rajadas que chegam a assustar. A janela está entreaberta e contribui para que o som violento penetre sala dentro com maior facilidade.

O dia foi quente. Muito quente. Chega a ser estranho entrar em Setembro e sentir o suão. Relembro-me dos dias de calor, em Agosto, em que a trovoada chegava ao fim do dia. Os relâmpagos entrelaçados com os trovões metiam medo que nem o maravilhoso cheiro a terra quente molhada minorava. Não sei porquê mas, quando era miúdo, estes fenómenos só aconteciam em Agosto. Pelo menos na minha mente. Não me lembro que Julho, por vezes tão ou mais quente, trouxesse nuvens de desenvolvimento vertical (obrigado aos professores de Geografia do 3º ciclo que me apresentaram este conceito) que descarregassem forte e feio num curto período de tempo.

Mas não foi por causa do calor estival, nem do vento que assobia, que eu liguei a máquina de escrever. Foi um longo curso de água, daqueles que nascem em Espanha e juntam-se ao mar em Portugal, que me fez dar à unha.

Sempre ouvi falar do Douro como um rio e uma região únicos. De uma beleza inigualável. Sentado à secretária, na escola primária de Castelo de Vide, igual a tantas outras que nasceram no Estado Novo, a professora sempre elencou os principais rios de Portugal. Entre os quais figurava o Douro. O “excesso de natureza”, como escreveu Miguel Torga.

Foram precisos vários anos para me consciencializar de algumas particularidades do Douro. E do seu peso, da sua importância. Não foram os livros da escola. Nem sequer foi a primeira viagem até ao rio que me despertou para tudo o que implica.

Mesmo na adolescência, nas famosas visitas de estudo da disciplina de Religião e Moral, a visita às caves de vinho do Porto não foram muito mais do que uma viagem com amigos e a possibilidade de viver aventuras próprias de quem tem 15 ou 16 anos. Não era o rio nem a sua importância que me despertavam a maior curiosidade nessa época.

As leituras. O maior interesse pelo vinho. As idas mais constantes ao norte do país transformaram a relação com o rio. Aproximei-me. Quase que se criou uma intimidade. Com respeito. Sempre.

Dou por mim, pensativo, a imaginar como tudo terá começado. A criação dos vários ecossistemas que se encontram pelas diversas regiões que o Douro atravessa.

Há muito que deixou de ser o lençol de água que passa por baixo da ponte D. Luís I. Agora são aqueles hectares e hectares de vinha que se comportam de forma tão distinta porque, por causa do rio, o clima ali é invulgar. Mesmo com a muita água, no vale faz calor. Bastante. E à medida que procuramos os topos das montanhas que ladeiam o Douro, a temperatura baixa. Por isso, dizem, temos vinhos tão especiais. Mas o leito é mais do que isso. É magnânimo. Magnético.

Foi, também, pela sua existência que pessoas se fixaram em determinadas localidades. Pinhão e Peso da Régua, por exemplo, só são as terras que são porque havia ali um curso importante de água. Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, só terá aprendido tanto sobre vinho e o Douro porque viveu a sua adolescência em São João da Pesqueira. Foi ele, conhecedor da realidade da altura, que criou a primeira região demarcada no mundo, no Douro.

As idas ao Douro tornaram-se mais regulares nos últimos anos. Mas, por força de um vírus, 2020 quase que estagnou. O tempo em que a região e o rio deixaram de fazer parte dos meus destinos não impediram que soubesse voltar quase de olhos fechados.

Decidimos, por isso, regressar à região, em família. Na semana que antecedeu a viagem, o destino foi tema de conversa por diversas vezes. A experiência foi mágica. Memorável. Não sei se, para o meu filho, perceber a forma astuta e engenhosa como as vides se encavalitam serra acima foi importante. Mas o primeiro contacto com o rio, as curvas e os declives, esses ficaram na retina.

Acredito que, para já, para o meu filho, o Douro ainda não é mais do que um rio. Mas sei que, com a idade que tem, já está em vantagem em relação a mim. Quando aprender esta matéria na escola a perspectiva será diferente. Afinal, já viu o rio e tudo o que o rodeia.

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