Portalegre é Portugal concentrado

São 483 metros acima do mar. É a altitude desta terra alentejana. Portalegre viu-me nascer. Para sul e oeste, quase se perde a linha do horizonte. É o infinito para os olhos, característica, essa, ímpar do Alentejo. A planície espraia-se, como se ali estivesse, apenas, para molhar os pés da cidade. Para norte e este, erguemos a cabeça. Tentamos ver, espreitar o outro lado da montanha e perceber o que se passa em Espanha.

José Régio, vilacondense que se estabeleceu no mais alto dos alentejos para ser professor, escreveu, assim, numa das suas criações literárias mais ligadas à cidade onde viveu:

“Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
(…)
Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De montes e de oliveiras
Do vento suão queimada”

O Alto Alentejo e Portalegre são Portugal em versão concentrada. Não se apresentam num frasco de vidro. Não estão em vácuo. Mas percebemos-lhes linhas, formas e tonalidades que nos recordam outras latitudes desta cantinho à beira-mar plantado.

Da planície, já se sabe, assistimos a uma transformação gradual ao longo do ano. Os campos planos que marcam o imaginário de qualquer um que já tenha visitado ou visto o Alentejo, vestem-se de verde frio no Inverno, de verde brilhante e fresco, pontuados com branco, amarelo, roxo e vermelho, na Primavera. Mudam-se para amarelo vivo e torrado no Verão e entregam-se ao castanho outonal. É a terra das “oliveiras e sobreiros” como invocou Régio.

Na serra ficamos perdidos. Há o verde minhoto, fresco e brilhante. Há declives que nos transportam para as beiras e os grandes blocos de granitos que vemos, amiúde, mais a norte da região, fazem-me viajar até aos relevos transmontanos. É o lugar “de serras, ventos, penhascos”, sustenta a literatura regiana.

Nota
Rui Cardoso Martins, escritor meu conterrâneo, foi quem tão bem descreveu a região como Portugal concentrado. Eu vivia, naquela altura, na área metropolitana. Um dia, às compras no supermercado do bairro onde morava, ouvia, com os auscultadores, uma entrevista que o autor dava, creio, a Inês Fonseca Santos. Aquela definição caiu-me no goto.

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